– ZURICA – Uma viagem à memória de Penedo


Chalé dos Peixotos - Penedo/AL (Brasil) - Ano 2001).

Chalé dos Peixotos – Penedo/AL (Brasil) – (Fotos: Teresa Cristina de M. Peixoto – 2001)

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UMA VIAGEM À MEMÓRIA DE PENEDO

          Acometida de forte gripe, moléstia importuna, cacete, que me retém em casa, exclusa e sem poder sair, sinto-me isolada, qual prisioneira que estivesse a cumprir sua pena.

         Aborrecida, sem saber o que fazer, tomo ao acaso os jornais vespertinos, cheios de escandalosos cabeçalhos. De relance, corro os fatos do dia, as crônicas sociais… São inúmeros os programas dos cinemas e teatros. Há reclames e mais reclames das festas juninas nos clubes e cassinos. Jogo à distância os jornais. Tudo me enfastia nesta noite.

        Em casa, quase todos saíram. A solidão deixa-me ainda mais aborrecida e entediada… Por que diabos inventaram a doença, principalmente quando se é moço?… Passeio em volta da sala de estar. Ando para lá e para cá, num vaivém contínuo.

          Detenho-me ao rádio e ligo, indiferentemente, na estação da Mayrink Veiga, onde César Ladeira e Sônia Oiticica fazem um comentário pitoresco. Eles dizem uma porção de coisas; prós e contras sobre o São João aristocrático de nossos dias, cheios dos bizarros sons de jazz, confrontando-o com o São João de outrora, simples e familiar, acompanhado de toadas, canções sertanejas e desafios dos melhores violeiros.

         Algumas de suas palavras despertam-me o subconsciente e, num instante, como atingida por varinha mágica de contos de fadas, vejo-me a encetar uma longa travessia aérea… E lá me vou, pelos ares, rumo às plagas nordestinas, em condução prodigiosa, rápida como o relâmpago, e que tem a dupla vantagem de ser gratuita e de levar-me às regiões longínquas do meu passado.

        Estou chegando. Pouso em um rio imenso, o segundo do Brasil, e aporto numa cidade pequenina, alevantada entre penedos. É noite de São João, e como é diferente o São João na minha terra…

         Ponho-me a percorrer os sítios conhecidos. Nas ruas mais afastadas, à porta de cada casa, há uma árvore e uma fogueira acesa. Chegam-me aos ouvidos os estrépitos da lenha, o pipoco do milho. Recende um cheiro gostoso de batata doce assada na brasa…

        Como a iluminação elétrica ainda não é muito intensa, perfeitamente distingo os balõezinhos coloridos dispersos no ar, tremeluzentes, irrequietos, em sua carreira de pequenos astros fugidios.

       Bombas e traques estouram em derredor, acompanhados dos gritos da criançada. Girândolas e girândolas de foguetes sobem ao céu, soltando uma cauda deslumbrante de lágrimas multicores.

       Vou me aproximando do Cajueiro Grande. Ao longe, diviso minha casa, aquele chalezinho vermelho cercado de jasmineiros em flor. Lá estão os grandes terraços, tendo a vista para o Rio São Francisco, o Morro do Aracaré, a Passagem e Vila Nova…

      Vejo-me então pequenina, a discutir com os irmãos:

– Também eu quero busca-pés!…

– Papai repartiu igualmente todos os fogos, e não é justo que vocês os tomem só porque sou menina.

– Por que não devo soltá-los?… Sou valente e corajosa!…

        O São João era a minha festa predileta. Sonhava com essa noite, em que se distribuíam jogos e folguedos, que deveriam estender-se até o dia de São Pedro. A casa se enchia de gente. Vinham os parentes, os amigos. E a meninada da vizinhança corria à nossa porta a fim de assistir ou de participar da nossa alegria…

        A canjica, o milho verde, assado ou cozido, o cuscuz, o mel de engenho, a mãe-benta, o licor de jenipapo, enfim, não faltava à mesa nenhuma das iguarias sanjoanescas. Bons tempos de fartura e de cordialidade…

         Um pouco adiante da nossa residência realizava-se anualmente a célebre batalha das espadas, travada entre o pessoal de MANOEL CATARINHO e o de ANTÔNIO SOTERO, conhecido proprietário da fábrica de fogos de artifício da cidade. Essas batalhas eram muito interessantes e de lindo efeito visual, apreciadas a distância, pois quase sempre saía gente queimada dentre os participantes.

        Uma garota de oito anos, ágil, esperta, era eu, naquela época, o tipo da pequena levada da breca. Tendo bem nítida a noite em que, desviando-me da vigilância paterna, tomei uma das grandes pistolas destinadas aos adultos e, em um gesto muito de afoiteza e algum tanto de audácia, corri à rua, resolvida a soltá-la. Tão forte era esse fogo, que necessitei de auxílio da filha do jardineiro, que o segurou enquanto eu lhe ateava chama.

       E o meu castigo foi tremendo… Até hoje o trago visível no rosto. Ao retomar a pistola, impelida por força brutal, e desprendendo-se de minhas pequeninas mãos, ela estourou-me ao queixo, causando-me enorme queimadura.

         Perdi os sentidos. O sangue jorrava-me do maxilar inferior em borbotões. Todos, alvoroçados, vieram ao meu encontro, e o Paizinho, desvelado e aflito, tomou-se nos braços, carregando-me para dentro.

        Despertando do susto, notei o sobressalto geral, e imagino grave o meu estado. Angustiada, abracei-me ao Papai querido e, como se ele pudesse me livrar de todo e qualquer perigo, roguei-lhe, aos soluços: – Meu Paizinho, não me deixe morrer…

       Entre um sem-número de brinquedos, em meio a carinhos e afagos, a vida me era fácil e risonha… Na minha inconsciência de criança, o mundo tinha para mim a magia suprema dos reinos maravilhosos dos países encantados.

      No São João que se seguiu, imaginaram todos que o acidente me tivesse tornado mais quieta e medrosa. Enganaram-se, entretanto, quando me viram surgir entre a meninada, fogos em punho, com a mesma audácia de sempre…

       Que longe vai tudo isso… Bons tempos… O mundo gira, gira… A vida toma outro rumo… As coisas se modificam e se transformam. Eu cresci e me tornei mulher. Com o decorrer dos anos surgem as lutas, os obstáculos, tristezas e decepções…

        Mas… Cuidemos de voltar ao ponto de partida. Antes de seguir, porém, quero rever de perto a casa querida que me escutou os primeiros passos… A casa que tanto amei… O jardim, a sala de estudo, meu quarto, as sacadas, o socavão, o telhado. E até o galinheiro grande, o tanque do jardim e as velhas mangueiras, todos os cenários onde se desenrolaram as minhas travessuras… Meu primeiro amor…

        Aproximo-me do botão; toco a campainha e ninguém aparece. Tenho uma vontade louca de pular o gradil do jardim, como fazia antigamente, e então me apercebo, já não sou criança, e como tudo está modificado!… A casa nem parece a mesma. Pintaram-na de outra cor e deram-lhe uma forma diferente.

        Novas gentes moram ali, restando poucos vestígios daqueles que dantes a habitaram. Apenas os grandes terraços e as velhas mangueiras conservam-se os mesmos; silenciosos, serenos e impassíveis.

        E guardam consigo, implacavelmente, uma saudade infinita. Saudade esta que eles não me podem contar…

Rio de Janeiro/RJ, junho de 1940.

ZURICA GALVÃO PEIXOTO.

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          “Nasci em um lugar soberbo, de magnífica luminosidade que, às vezes, ao lembrar, agradeço a Deus e aos meus queridos pais por terem dado a mim tão esplêndido berço para nascer. E isso é o meu maior orgulho e consagração.”

FRANCISCO INÁCIO DE CARVALHO MOREIRA

Barão de Penedo, (*1815 – +1906).

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          “Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.”

FERNANDO PESSOA (*1888 – +1935).

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Colaboração:

– FERNANDO MOURA PEIXOTO (ABI 0952-C).

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NOTA:

          ZURICA PEIXOTO (*9.12.1914 / +16.7.2005), alagoana penedense, tinha 25 anos (1939) quando escreveu esta crônica e morava, desde 1937, com a família no Posto Seis, em Copacabana, bairro nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro/RJ.

          O programa da Rádio Mayrink Veiga, apresentado por CÉSAR LADEIRA (*1910 – +1969) e SÔNIA OITICICA (*1918 – +2007), nas quartas-feiras, às 22 horas, chamava-se “Antigamente era assim”, sempre com um tema previamente escolhido.  

          A cicatriz – pequena – de ZURICA localizava-se no queixo, que ela mostrava, com uma ponta de orgulho, mesmo já idosa, contando como a conseguira.

        No dia 16 de julho 2017, completou 12 anos que a ilustre Penedenense Zurica nos deixou, aos 90 anos, exalando vitalidade e muito amor à terra onde nasceu – sua querida Penedo, nas Alagoas.

         Três das fotos coloridas de Penedo foram tiradas do Hotel São Francisco, em 2001, por TERESA CRISTINA DE MOURA PEIXOTO (*1951), irmã de FERNANDO MOURA PEIXOTO , em viagem com o marido por plagas nordestinas.

 

 

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