*- Pastoril


Pastoril Filhas de Maria - Matriz de Camaragibe/AL (Brasil)

Pastoril Filhas de Maria – Matriz de Camaragibe/AL (Brasil) – É considerada “a Princesa do Norte”.

          Segundo o poeta MÁRIO DE ANDRADE, a primeira idéia de representar o nascimento do Menino Jesus foi século X, num Mosteiro, pelo Monge TUOTILO. A princípio denominada de Presépio, a encenação da vinda do Menino Jesus à Terra fragmentou-se com o passar do tempo, e grande parte do espetáculo foi transformado em jornadas soltas, canções para mostrar como as pastoras chegaram a Belém para visitar o filho de Maria na manjedoura.

         “Na verdade, a invenção dessa representação mística que é o Presépio é atribuída a São Francisco de Assis, que já em 1223, ajudado por seus frades, representou pela primeira vez a cena sagrada”.

      Conforme o tempo passa, os autos baseados na temática Natalina se separam em duas direções: uns, obedecendo a linha hierática, foram denominados de Presépios ou Lapinha, outros, de Pastoris.

          O primeiro Presépio surgiu numa cerimônia, realizada no Convento de São Francisco, em Olinda/PE, nos fins do século XVI, com as Pastorinhas cantando “loas”. Daí por diante o Presépio tomou forma animada e dramática, criando-se assim, a pura representação equilibrada envolvendo gente e bichos. As representações em conventos, igrejas e muitas das vezes em casas de família, reuniam moças e meninas, cantando canções atinentes ao nascimento de Cristo.

        O Pastoril é um auto Natalino com raízes dos dramas litúrgicos representados inicialmente nas Igrejas Portuguesas.

          “É um fenômeno de imposição erudita, de importação burguesa, No Brasil, devido a pouca importância etnográfica e folclórica, o Pastoril não conseguiu ter grande repercussão. Sua maior expansão e florescimento, sem dúvida, foram na Região Nordeste, particularmente, em Alagoas, Pernambuco e Bahia, diferentemente das Cheganças, Congos, Caboclinhos e Bumbas, que deixaram vestígio marcante por quase todo o solo Brasileiro” (MÁRIO DE ANDRADE – Livro Danças Dramáticas do Brasil).

         É sem dúvida um dos quatro principais espetáculos populares do nordeste, sendo os outros o  Bumba-meu-boi, o Mamulengo e o Fandango.

         Em Alagoas, o Pastoril chegou por intermédio dos colonizadores portugueses, encontrou solo fértil, tendo prosperado a tradição, tanto no interior como na capital. Esta é a terra, em que foi palco de incontáveis disputas entre os dois cordões, o azul e o encarnado. A brincadeira que nasceu num mosteiro, ganhou ares profanos com o passar das décadas, independente dos caminhos que o Pastoril tomava em cada Estado do Nordeste, principalmente em Alagoas e Pernambuco.

            Com o passar do tempo os grupos nordestinos adaptaram a forma de se apresentar: Entre os personagens empregados foram mantidos fixos: A Mestra (a 1ª do Encarnado e a 2ª do Encarnado) líder do Cordão Encarnado e a Contra-Mestra (a 1ª do Azul e a 2ª do Azul) líder do Cordão Azul; a Diana, que dança no centro e é sem partido; e as Pastorinhas, geralmente seis de cada cordão. Das jornadas, permaneceram iguais apenas “A inicial – ou Boa Noite – e a final – ou Despedida“.

           A representação da Borboleta, da Cigana, do Pastor e do Anjo Gabriel é comum entre os grupos e simbolizam as figuras que as pastoras vão encontrando no caminho até Belém. Algumas para ajudá-las e outras, para atrapalhar a marcha. O Velho (figura polêmica e curiosa) usa calças (largas), paletós (alambasados e colarinhos folgadíssimos), cabendo a ele animar o espetáculo com seus ditos, piadas, anedotas, canções obscenas, mexer com as Pastoras, tirar pilhérias com os espectadores, inclusive, receber dinheiro para dar os famosos “Bailes” (ralho em pessoas indicadas como alvo); comandar os “leilões”, ofertando rosas e cravos, daí recebe lances cada vez maiores, dos afeiçoados e torcedores das pastoras.

          Com a formatação profana do Pastoril, a música, mesmo de importância singular, não permaneceu intocável, até os grandes sucessos das rádios na época, inclusive, cançonetas, valsas, modinhas e outros ritmos, foram introduzidos e eram interpretadas pelas Pastorinhas em busca de aplausos e agradecimentos aos seus partidários. Para tanto, as jornadas do Pastoril costumam ter apoio instrumental: Os Violões, Cavaquinhos, Trombones ou Saxofones, Pandeiros e Surdos.

          Tamanha as disputas, que vários poetas duelavam, criando jornadas para atacar o cordão adversário e exaltar o próprio cordão, as chamadas “chateações poéticas”, tais como:

– “O encarnado no seu palacete. O azul levando cacete”;

– “Azul é o sol, azul é o mar, azul é a rainha que nós vamos coroar”.

         Ao publicar o livro (1ª Edição – 1962) “Folguedos Natalinos”, o folclorista THÉO BRANDÃO fez questão de frisar a diferença entre os pastoris apresentados em Alagoas e Pernambuco.

          “O pastoril alagoano diferencia-se da versão pernambucana do auto porque, apesar das deturpações, da inclusão de música e textos profanos, nunca chegou, mesmo o Pastoril de rua, à licenciosidade, à chalaça, à imodéstia dos trajes, gestos e costumes que caracterizam o auto popular do vizinho Estado”.

          A publicação de THÉO BRANDÃO é compreensível, visto a definição de VALDEMAR VALENTE DO PASTORIL (Antropólogo Pernambucano), vejam:

Pastoril do Velho Xaveco - Recife/PE (Brasil)

Pastoril do Velho Xaveco – Recife/PE (Brasil) – O comediante Velho Xaveco opitou por um estilo profano.

          “O Pastoril, embora não deixasse de evocar a Natividade, caracteriza-se pelo ar profano. Por certa licenciosidade e até pelo exagero pornográfico, como aconteceu nos Pastoris antigos do Recife”, escreveu o pesquisador recifense, em artigo titulado Pastoril, publicado no site da Fundação Joaquim Nabuco. “As pastoras, na forma profana do Auto Natalino, eram geralmente mulheres de reputação duvidosa, sendo mesmo conhecidas prostitutas, usando roupas escandalosas para a época, caracterizadas pelos decotes arrojados, pondo à mostra os seios, e os vestidos curtíssimos, muito acima dos joelhos”. , detalhava VALENTE, que na Revista Brasil Açucareiro, de 1969, noticiou: “Os jornais da época censuravam o ar indecente de que se revestiam certos presépios, lembrando que a polícia, no seu propósito de zelar pela moral pública e pelos bons costumes, devia cancelar o seu funcionamento”.

          O Antropólogo VALENTE foi mais autêntico ao detalhar o publicado na Revista Brasil Açucareiro de 1969, que noticiou:

         “Os jornais da época censuravam o ar indecente de que se revestiam certos presépios, lembrando que a polícia, no seu propósito de zelar pela moral pública e pelos bons costumes, devia cancelar o seu funcionamento”.

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