Igreja/NOSSA SRA. DA CORRENTE


Igreja de N. Srª da Corrente - Pça 12 de Abril - Penedo-AL

Igreja de N. Srª da Corrente – Pça 12 de Abril – Penedo-AL.

UMA DAS MAIS BELAS DO BRASIL

          Em meados de 1720, em honra a Virgem Santa, os moradores da margem esquerda do Rio São Francisco, principalmente os pescadores, construíram uma pequena Capela no terreno em que a atual Igreja foi edificada, a qual foi denominada de Nossa Senhora da Corrente, cujo objetivo da maioria dos devotos era realizarem suas orações em busca de proteção das furiosas correntezas do curso fluvial do Velho Chico, todavia, com o passar dos anos a mesma veio a se desmoronar.

          O detalhe é que, a Fachada em estilo Barroco (Colonial) da atual Igreja de Nossa Senhora da Corrente exibe a data de 1729, o que comprova que essa fabulosa obra prima é uma construção do século XVIII e constitui um dos objetos mais representativos do acervo Patrimonial da Cidade e da Arquitetura Religiosa do Estado de Alagoas. Um monumento de arquitetura sóbria e que contrasta com a riqueza artística de seu interior. O conjunto é belo, gracioso, leve e de um refinado gosto artístico. Entre o seu exterior e interior há uma real hipertrofia marcante.

          Fatos indicam que na época, o Capitão-Mor JOSÉ GONÇALO GARCIA REIS, esposo de DONA ANA FELÍCIA DA CORRENTE, tomou a si a iniciativa da construção da atual Igreja, tendo em 1764, iniciado os trabalhos. Logo, em 1765, após a conclusão da edificação da Capela-mór e da Nave a obra foi dada como finalizada.

       Com o falecimento do Capitão-mór JOSÉ GONÇALO, seu Genro (Sargento-Mor JACINTO SOARES DE SOUZA) ficou a frente dos negócios e deu continuidade a obra. Sequencialmente ficou por conta de DONA ANA, mas, quando ocorreu o falecimento da mesma, os trabalhos foram prejudicados por um longo Tempo, visto os herdeiros não assumirem o final da obra.

           No ano de 1790, surgiu o Capitão de Ordenança ANDRÉ DE LEMOS RIBEIRO (Português, rico e piedoso), assumiu o compromisso pela conclusão da edificação do Templo. E foi de Portugal, que o Capitão LEMOS adquiriu o necessário para decoração e conclusão da bela edificação religiosa. Devido sua avançada idade, em 1804, a direção do Templo foi passada para seu sobrinho, Capitão MANOEL SILVA LEMOS. Por se tratar de uma obra particular e pelo zelo que a Família LEMOS tinha pela Casa de Deus, a Igreja foi por longa data denominada de “Igreja da Família Lemos”. Motivo pelo qual, vários dos LEMOS estão sepultados no local, aliás, um velho costume da sepultura¹ eclesiástica na fase Colonial.

Igreja N. Srª. da Corrente - Vista Interna - Penedo-AL

Retábulo/Capela-Mór – Igreja N. Srª da Corrente [1764] – Estilo: Barroco, Rococó e Neoclássico – Pça 12 de Abril – Penedo-AL (Brasil).

          Dotada de um traçado eclético, reunindo detalhes Barrocos, Rococós e Neoclássicos, com influência das escolas Baianas e Pernambucanas. Sua composição é toda de uma Capela com porta única almofadada, ombreiras de pedra calcária e verga em meio arco. As Janelas (três) com gradil de ferro, possuem ainda três panos na fachada, onde se encontram os gradis isolados, todas elas têm ombreiras e verga em meio arco e sobre a janela central está um óculo. O Frontispício é encimado por um Frontão (escola Pernambucana) recortado, em curva com volutas, estando decorado com frisos de cantaria, tendo no centro decoração em raios e elementos florais, também em cantaria, além de uma Cruz, tendo na base dois coruchéus esculpidos em pedra calcária. Torres (duas) quadrangulares (soltas da edificação primitiva) com cobertura bulbar e azulejadas, quatro sineiras em cada uma delas, óculos e coruchéus. Dos quatro sinos que estão colocados na torre à direita de quem entra no Templo, três apresentam informações importantes: Um deles com a Imagem da Virgem com a inscrição “Joannus Ferreyra Mafecit Brachar – 1801”; outro tem escrito “Antonio Alves Guerra me fez em Lisboa no ano de 1802” e no pequeno, a data  1804”.

         Transpondo a porta (exclusiva) para a elegante Nave (única), chegamos sob o coro, com balaustrada de madeira, então podemos visualizar que o ambiente possui Piso em ladrilhos hidráulicos (mosaico Inglês), e paredes revestidas em sua base por uma rica decoração de primorosos “azulejos policromados”  de traça Portuguesa, com motivos Marianos, formando um conjunto decorado composto por dez quadros sacros (oito no corpo da Nave e dois na Capela-mor), que retratam a vida de MARIA SANTÍSSIMA. A fabricação é Lisboeta (mesmo artista que fez os do Convento de Loios), possivelmente da Fabrica Real do Rato e aplicados entre 1800  e 1804; Cancelo de Jacarandá de fino trato; Púlpitos (dois) graciosos (entalhados e estilo neoclássico); Tribunas com varanda de madeira trabalhada; Portas (duas)  com sanefas de madeira que dão acesso aos corredores; os Altares Laterais estilo neoclássico (Escola Baiana), entalhados em madeira, dão realce ao conjunto; Retábulos (dois) da Escola Baiana; Forro apainelado com pintura de uma linha ilusionista do Sagrado Coração de Jesus muito bonito; o Altar-mor é trabalhado, folheado a ouro e pintura marmoreada azul e rosa em estilo rococó; um imponente Arco-Cruzeiro trabalhado e folheado a ouro, estilo rococó, separa a Nave da Capela-Mor, tendo no alto um escudo (Brasão) trabalhado.

           Há uma uniformidade apresentada no conjunto de decoração em azulejo lusitano, que mesmo desprovidos de legendas, os quadros sacros retratam:

  • Na Capela-mór, do lado (esquerdo) do evangelho:
  1. Anunciação.
  • Na Nave, do lado do evangelho:
  1. Nascimento de Maria;
  2. Ofertório de Nossa Senhora;
  3. Nossa Senhora no Templo;
  4. Casamento de Maria.
  • Na Capela-mór, do lado (direito) da epístola :
  1. Visitação.
  • Na Nave, do lado da epístola:
  1. Nascimento de Jesus;
  2. Adoração dos Monges;
  3. Circuncisão;

10. Fuga para o Egito.

        A Nave possui de um lado e do outro, um “Anjo” é retratado em espaço menor entre a teia que completa o Arco-Cruzeiro e os Altares Colaterais (estilos Neoclássicos). No centro da mesma, uma bela rosácea se destaca como elemento único, em tons de azul e marrom, cercada pelos ladrilhos de motivos uniformes e singelos que completam a pavimentação da Igreja.

         A Capela-Mor é mais estreita e profunda, tem duas portas e quatro janelas com sanefas de madeira. O Retábulo da Capela-mór, rigidamente dentro da linha “Rococó” com colunas salomônicas singelas, dois nichos, sacrário, espositório, camarim com tronco eucarístico; O Altar tipo urna, com um requintado douramento. No referido Retábulo, podemos apreciar pequenas Estátuas (esculturas) Portuguesas, de NOSSA SENHORA DA CORRENTE, SÃO JOSÉ, SANTA CECÍLIA e SANTA LUZIA, em forma de presépio, são elementos graciosos e dão realce ao conjunto. Além do Forro com outra bela pintura (estilo ilusionista).

         Na Sacristia existe um elegante Retábulo de pedra calcária de linha Rococó e um Arcaz de jacarandá de bom estilo. No corredor oposto à Sacristia está a bela imagem de SÃO MIGUEL ARCANJO, da lavra do mestre CESÁRIO PROCÓPIO DOS MARTIRES (Escultor Penedense), oriunda da Catedral Diocesana, quando ocorreu a saída da Irmandade das Almas (Erecta: 15/03/1673 – Estatuto aprovado: 11/05/1843), a qual passou a se reunir na IGREJA DE NOSSA SRª DA CORRENTE .

Igreja N. Srª da Corrente [1764] - Altar-Mór - Pça 12 de Abril - Penedo-AL.

Igreja N. Srª da Corrente [1764] – Altar-Mór – (Esconderijo p/ Escravos (esq.) – Uma das mais belas do Brasil – Pça 12 de Abril – Penedo-AL (Brasil).

           Durante o “Movimento Abolicionista” foi utilizada como lugar de refúgio pelos escravos que fugiam das pequenas e grandes fazendas. Graças a existência de uma “passagem secreta” existente no lado direito do Altar-Mor (esquerdo para quem adentra a Igreja), os negros ali permaneciam por um curto período (três à quarto dias) aguardando o momento exato para escaparem, ou seja, até receberem uma “Carta de Alforria” falsificada e, assim, fugirem para o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, atual Município de União dos Palmares/AL. Após as cerimônias a Igreja era fechada, muitas vezes sob o pretexto de que se realizariam “cerimônias fechadas” aos membros da Família Lemos. Dessa forma os escravos eram soltos para circularem e descansarem no interior do referido recinto.

       O Templo é uma louvação à mulher, além dos originais azulejos portugueses que registram várias fases da vida da virgem MARIA SANTÍSSIMA, traz figuras de mulheres bíblicas como JUDITH que exibe a cabeça de HOLOFERNES e de JAEL que mostra as armas (escopos) com as quais matou SISARA.

          Cada espaço da Igreja de Nossa Senhora da Corrente tem um significado de rara beleza, inclusive serviu de inspiração ao poeta LÊDO IVO (Jornalista, Poeta e Romancista – Alagoano). Foi também elogiada pelo Professor GERMAIN BAZIN (ex-diretor do Museu do Louvre de Paris/França), considerando que a obra em talha é um conjunto admirável, tendo ele declarado:

– “É um dos mais belíssimos do Brasil,  o cocheado, precioso, está artisticamente recortado em sinuosidade, colocado sobre um fundo jaspeado, cujo brilho do vermelho e dos ouros é valorizado pelo tom frio do branco venoso. Entretanto, pelos únicos vãos da fachada, os feixes de luz fazem com que reluzam na penumbra esses vermelhos e esses ouros de um brilho doce, profundo e misterioso. Pequenas estátuas portuguesas, de estilo presépio, com seu meneio elegante, contribuem para a graça do conjunto. A luminosidade que cintila sobre esses ornamentos é tão suave que a câmara fotográfica consegue captar um pouco do seu encanto. O visitante europeu lembra-se imediatamente da entrada envolvente da Saint-Chapelle. O tema é mesmo, com a beleza sobrenatural da luz realçada na penumbra da cor.” Nossa Senhora da Corrente nos apresenta assim, mesclada, as duas influências que estão presentes em Penedo: Bahia e Recife.”

           Apesar da devoção a Nossa Senhora da Corrente não ser conhecida na iconografia católica, a padroeira do referido Templo e venerada pelos Penedenses durante décadas, sempre foi Nossa Senhora da Corrente, cuja denominação é desconhecida no calendário litúrgico da Igreja. A imagem ostentava, em lugar do habitual rosário, uma corrente de ouro maciço, que pendia das mãos da imagem, cujo paradeiro é desconhecido.

           Reconhecido seu valor histórico, a Igreja de Nossa Senhora da Corrente é a mais completa deste curioso estilo de transição do Rococó para o Neoclássico, podendo figurar como uma verdadeira obra-prima de arte Luso-Brasileira. Foi tombada pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), sendo popularmente classificada como um dos templos de construção particular mais belo de todo o país.

ESCULTURAS NO INTERIOR DA IGREJA:

NOSSA SENHORA DA CORRENTE: _ A escultura tem um planejamento esvoaçante com rico estofamento dourado. Sobre seu braço esquerdo está o “Menino Jesus”, havendo um perfeito equilíbrio em relação ao todo. A peanha ricamente trabalhada com quatro “Puttis” (anjos), onde se pode encontrar a presença exuberante do Barroco.

– SÃO JOSÉ: _ A elegante imagem de São José, bem semelhante, é de uma traça erudita.

– SANTA CECÍLIA e SANTA LUZIA: _ Belíssimas imagens, ambas de uma traça Barroca do século XVIII, posicionada na banqueta do primoroso Retábulo (estilo Rococó). Ambas em homenagem aos filhos do fundador. Anteriormente cada imagem ficava em um dos nichos que havia de cada lado, entre as colunas salomônicas, os quais foram retirados. Uma inovação que veio a quebrar a unidade do Retábulo em sua composição.

– CRUCIFICADO AGÔNICO: _ Escultura de linha Barroca em marfim, localizado no Retábulo Lateral (linha neoclássica da Escola Baiana), ficando sobre o nicho de NOSSA SRª DAS DORES, ambas de autor ignorado.

– SANTO ANDRÉ e SÃO MANUEL DA PACIÊNCIA: _ De uma linha neoclássica (Escola Baiana) estão localizados em outro Retábulo, existente no lado oposto, ambos em homenagem aos benfeitores da Igreja.

ORIGEM DO NOME DA IGREJA (imaginário popular):

Alguns associam ao sobrenome de uma das suas benfeitoras, ANA FELÍCIA DA CORRENTE.

Outros afirmam que é provável que o nome foi dado por JOSÉ GONÇALO GARCIA REIS (Português) que, conseguindo libertar-se de uma prisão em Portugal, fugiu para o Brasil e chegou a Penedo ainda usando (algemado) um pedaço da corrente. Diante da graça que alcançou, inicio a construção da igreja, tendo o pedaço da corrente sido enterrada no alicerce

Já outros acreditam que o nome de “Nossa Senhora da Corrente” esteja ligado à invocação a “Virgem Mãe de Deus” para proteger os pescadores da fúria da correnteza do rio.

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¹_ A Lei Geral de 01/11/188 da Câmara – determinava a construção de Cemitérios públicos fora do recinto das Igrejas, pondo fim nas sepulturas eclesiástica na fase colonial.

 CLIQUE (outras fotografias)

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LOCALIZAÇÃO:

– Praça 12 de Abril – Centro Histórico – Penedo/AL (Brasil).

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Fontes de Pesquisas:
– Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
– Ernani Otacílio Mero – Templos, Ordens e Confrarias – Ano 1991.

Uma resposta to “Igreja/NOSSA SRA. DA CORRENTE”

  1. Paulo Roberto Carneiro 14 de outubro de 2013 às 20:12 #

    Tive o prazer de visitar Penedo e fiquei muito feliz em encontrar belíssimas paisagens arquitetônicas, bem preservadas e um povo digno de sua cidade, hospitaleira e convidativa. Parabéns aos Penedenses.

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